“Caminho”: Fabíola Machado estreia em carreira solo com álbum que une samba, ancestralidade e espiritualidade afro-brasileira.
Materialização de um projeto amadurecido ao longo de mais de cinco anos, “Caminho”, primeiro álbum solo da cantora, compositora e pesquisadora Fabíola Machado, chegou às plataformas digitais em 5 de março. Com nove faixas, o trabalho tem direção musical do violonista Leandro Pereira e coprodução de Daniel Delavusca, propondo uma travessia sonora que percorre o samba de raiz, ritmos afro-brasileiros do Nordeste e referências espirituais que atravessam a trajetória da artista.
Mais do que um disco de estreia, Caminho se apresenta como um mapa afetivo e cultural. As canções exploram temas como resistência, fé, identidade e celebração da vida, ao mesmo tempo em que reafirmam o compromisso de Fabíola com a preservação e a reinvenção das tradições do samba. O título sintetiza esse percurso: trilhar caminhos próprios e abrir novas veredas dentro de um território musical marcado pela ancestralidade.
O álbum reúne composições inéditas, parcerias e releituras, além de uma faixa autoral. O repertório destaca a força interpretativa de Fabíola, marcada pela cadência do samba e pela presença simbólica dos tambores. O lançamento também marca um novo capítulo na trajetória da artista, conhecida como vocalista e cofundadora do grupo Moça Prosa, coletivo de mulheres sambistas criado na Pedra do Sal, em 2012, e integrante do Grupo Awurê, coletivo nascido em Madureira dedicado à pesquisa e reverência de ritmos afro-brasileiros, reconhecido como Patrimônio Imaterial do Estado do Rio de Janeiro em 2023.
Para Fabíola Machado, o disco também é um gesto político e cultural. Segundo a artista, a obra nasce da necessidade de afirmar narrativas negras e femininas dentro da música brasileira.
“Este disco nasceu de uma necessidade íntima de eternizar as canções que me atravessam a alma e que contam a minha história e a minha trajetória no samba. Cada faixa é um pedaço da minha memória, uma canção que me escolheu para ecoar. Tem a capoeira de minha infância, os sambas de roda do terreiro de candomblé onde fui criada, o samba que sempre esteve presente através dos discos de vinil e os livros do meu pai. A ciranda de uma viagem linda à Ilha de Itamaracá e um ‘Candomblues’ autoral inspirado na utopia do encontro dos tambores do candomblé e do blues.” —Fabíola Machado
O impulso para o projeto surgiu durante uma pesquisa sobre a presença feminina no samba. Nesse processo, Fabíola encontrou nos discos de vinil da cantora mineira Aparecida (1939–1985) uma espécie de chamado ancestral. Conhecida por suas gravações de partido-alto e pelas chamadas “macumbas” dos anos 1960, Aparecida tornou-se uma referência espiritual e estética para o álbum. Outra presença fundamental na construção do imaginário do trabalho é Clementina de Jesus, cuja intensidade interpretativa e diversidade rítmica seguem como bússola para a artista.

A jornada de Caminho começou a ganhar forma pública em dezembro de 2024, com o lançamento do single “Canto do Povo”, composição de Tiago Machado, Patricia Duarte e Marco Pollo Paiva. A faixa — um chamado sensível à união e à força coletiva — funciona como porta de entrada para o universo do álbum.
Entre os destaques do repertório está “Na Força de Nossas Mãos”, composição de Edu Prestes escolhida como música de trabalho. A canção constrói uma ponte poética entre passado e presente ao evocar a travessia do Atlântico e a permanência de identidades negras que resistem à imposição de nomes e narrativas. O disco também revisita “Som de Prata”, de Paulo Cesar Pinheiro e Moacyr Luz, homenagem emocionada a Pixinguinha, figura fundamental do choro e da música brasileira.
A faixa-título, “Caminho”, assinada por Fabíola Machado, Daniel Delavusca e Romulo Ferreira, sintetiza o conceito do projeto. A canção propõe uma fusão sonora entre a espiritualidade do candomblé e a melancolia do blues — encontro que a artista define como “Candomblues”. Na letra, a invocação a Exu (“Laroyê, Mojubá”) aponta para a encruzilhada simbólica onde se cruzam escolhas, transformações e destinos.
Outras faixas ampliam o mosaico de referências culturais do álbum. A ciranda “Rendeira” (Elias Rosa e Martina Carvalho) evoca a atmosfera festiva do litoral nordestino, enquanto “Santa Senhora” (Raul DiCaprio) surge como um lamento espiritual que atravessa a incerteza da travessia. Em “Juremeira”, Daniel Delavusca traduz musicalmente elementos da tradição da Jurema sagrada em Pernambuco. Já “Caboclo Boiadeiro” (Leonardo Pereira e Victor Lobisomen) reafirma identidades sertanejas e espirituais, e “Lá na Feira” (Bhia Tabert) celebra a autonomia feminina.
Costurado por memórias, territórios e espiritualidades, Caminho reflete a própria formação de Fabíola Machado. Mais do que um álbum de estreia, Caminho se afirma como um documento artístico de identidade, um trabalho que conecta memória, espiritualidade e música negra em uma mesma travessia sonora.